Filha da Secretária, esposas de vereadores e servidores graduados recebem Bolsa Família em Ingá

Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Enquanto centenas de famílias de baixa renda aguardam na fila por uma oportunidade de acesso ao Bolsa Família em Ingá, no Vale do Paraíba, um verdadeiro escândalo envolvendo pessoas ligadas ao alto escalão da Prefeitura e da Câmara Municipal começa a vir à tona.

Levantamento obtido pelo Tá na Área, com base em dados do Portal da Transparência e cruzamento de informações junto ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), revela que beneficiários do programa federal de transferência de renda possuem vínculos diretos com o poder político e administrativo do município — incluindo esposas de vereadores, parentes de secretários, servidores com salários fixos e integrantes de famílias influentes da gestão municipal.

O caso levanta sérios questionamentos sobre possíveis irregularidades cadastrais, omissão de renda familiar e uso indevido de um benefício criado para garantir sobrevivência mínima a famílias em extrema pobreza.

FILHA DA SECRETÁRIA DE AÇÃO SOCIAL ESTÁ ENTRE AS BENEFICIÁRIAS

Um dos casos mais emblemáticos envolve THARSYLA MARIA SILVEIRA MONTEIRO FELIX, coordenadora de programas de proteção da Prefeitura de Ingá em 2025. Ela é filha da secretária de Ação Social, Emmanuelle Silveira Monteiro Félix, conhecida como “Mana”, além de filha do secretário de Finanças, Márcio Dias Félix, e sobrinha do prefeito Jan Lenha.

Mesmo pertencendo a uma família que ocupa posições estratégicas dentro da administração municipal, Tharsyla recebe mensalmente R$ 650,00 do Bolsa Família.

A revelação causa indignação porque a própria Secretaria de Ação Social é responsável pelo acompanhamento e fiscalização do Cadastro Único e dos beneficiários do programa no município.

ESPOSAS DE VEREADORES E SECRETÁRIOS TAMBÉM RECEBEM O BENEFÍCIO

Outro ponto que chama atenção é a presença de esposas de vereadores entre os beneficiários do programa.

BRUNA CRISTIANY CAETANO DOS SANTOS, agente administrativa da Prefeitura, recebe salário mensal de R$ 1.668,54 e é esposa do vereador Nelinho da Silva Caetano, parlamentar com subsídio de aproximadamente R$ 8 mil mensais. Mesmo com renda familiar superior aos critérios de baixa renda do programa, Bruna recebe R$ 800,00 do Bolsa Família.

Situação semelhante ocorre com MARIA DE FÁTIMA PEREIRA BARBOSA, agente administrativa da Prefeitura e esposa do vereador Antônio da Oficina. Ela recebe salário municipal e ainda acumula R$ 350,00 do programa federal.

O mesmo padrão se repete com JEANE LUCAS FERNANDES DA SILVA, esposa do vereador Antônio da Lua, beneficiária de R$ 600,00 mensais do Bolsa Família.

FAMÍLIAS INTEIRAS LIGADAS À PREFEITURA ACUMULAM SALÁRIOS E BENEFÍCIOS

Um dos núcleos mais controversos identificados no levantamento envolve a família de CHARLES LAVOSIER CAMPOS COSTA, conhecido como “Charles Lenha”.

Servidor da Prefeitura com salário de R$ 2.572,00, Charles é pai do secretário de Cultura THALES LAMONIER GUEDES CAMPOS, que recebe salário de aproximadamente R$ 5 mil mensais.

Além disso, a esposa do secretário, BARBARA JULIANE ALVES DE OLIVEIRA, também é servidora pública municipal, com salário de R$ 1.621,00.

Apesar da soma de rendimentos da família, Charles e Barbara aparecem como beneficiários do Bolsa Família, recebendo respectivamente R$ 600,00 e R$ 475,00 mensais.

O caso é apontado por fontes locais como um dos exemplos mais evidentes de desvio da finalidade social do programa.

SERVIDORES COM SALÁRIOS FIXOS CONSTAM COMO BENEFICIÁRIOS

A lista obtida pelo Tá na Área mostra ainda outros nomes ligados à estrutura administrativa municipal:

* WALKIRIA DA SILVA ANDRADE — recepcionista da Prefeitura, irmã da vereadora Walbênia Andrade Félix e esposa do secretário adjunto de Cultura, Valmir Lopes. Recebe R$ 400,00 do Bolsa Família.

* JOSILAYNE BARBOSA DA SILVA BITU — esposa do secretário de Transportes, Thiago Oliveira Silva. Recebe R$ 800,00.

* ANA MARIA RAMOS DOS SANTOS — conselheira tutelar com salário de R$ 2.621,00 e esposa de servidor da saúde com vencimentos superiores a R$ 7 mil. Recebe R$ 700,00.

* RENATA SUELEN DA SILVA OLIVEIRA ARRUDA — coordenadora do setor de pessoal da Prefeitura. Recebe R$ 750,00.

* IVAMARA BARBOSA DA SILVA — diretora adjunta da rede municipal e esposa de gari concursado da Prefeitura. Recebe R$ 650,00.

* CILENE CAETANO DOS SANTOS SILVA — técnica de enfermagem com salário superior a R$ 3.800,00. Recebe R$ 750,00.

* ANDRÉ DE ALMEIDA AGRA OMENDA — odontólogo da Prefeitura com salário superior a R$ 3.400,00. Recebe R$ 650,00.

ÓRGÃOS DE FISCALIZAÇÃO COM A PALAVRA

Especialistas ouvidos pelo TÁ NA ÁREA explicam que o Bolsa Família possui critérios rigorosos de renda per capita e exige atualização constante das informações familiares. A omissão de renda ou informações falsas pode configurar fraude contra programa social do Governo Federal.

Diante da gravidade dos fatos, cresce a expectativa para que o Ministério Público Federal, a Controladoria-Geral da União (CGU), o Tribunal de Contas e o próprio Governo Federal investiguem possíveis irregularidades, favorecimentos políticos e eventuais fraudes no acesso aos benefícios sociais em Ingá.

O escândalo agora coloca sob suspeita justamente aqueles que deveriam zelar pela correta distribuição dos recursos destinados à população mais pobre do município.

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