Política

Falta de combustível pode ter causado a queda do avião, dizem especialistas

30 de novembro de 2016

As causas do acidente ainda estão sendo investigadas. Uma empresa aérea colombiana informou que um outro avião também pediu prioridade para o pouso em Medellín. Especialistas ouvidos pelo Jornal Nacional dizem que uma das principais hipóteses para o desastre foi a falta de combustível.

O avião era um modelo Avro RJ85, fabricado no Reino Unido pela British Aerospace, e tinha 17 anos e 8 meses de uso. O avião pertencia à Lamia, empresa de origem venezuelana, mas que atuava na Bolívia desde 2015.  A empresa informou que esse era o único avião da frota. O piloto, Miguel Quiroga, de 36 anos, que era também o dono da empresa.

As autoridades bolivianas informaram que a manutenção e a documentação do avião estavam em dia.

O modelo tem quatro motores montados sob as asas, capacidade máxima de 112 passageiros. Tinha duas caixas pretas, que já foram encontradas, e também tinha autonomia de até 2.900 quilômetros.

JN: Considerando que a distância entre Santa Cruz de la Sierra e Medellín é de aproximadamente três mil quilômetros, esse avião era adequado para fazer essa viagem?
Ivan Sant’Anna, piloto, autor de livros sobre acidentes na aviação: Não, totalmente inadequado. Se ele tem autonomia de aproximadamente 3 mil quilômetros e o voo tem aproximadamente 3 mil quilômetros, ele não tem nenhuma margem de erro.

Esse avião era muito utilizado por times de futebol. A Chapecoense pagou cerca de R$ 500 mil para fretar o avião para fazer o voo até Medellín. Já tinha sido utilizado antes pelo time catarinense e até a seleção da Argentina utilizou o avião em novembro, quando participou do jogo pelas Eliminatórias da Copa do Mundo contra o Brasil, em Belo Horizonte.

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) explicou o motivo por que negou à Lamia autorização para voar diretamente do Brasil até a Colômbia.

Afirmou que o pedido foi negado com base no Código Brasileiro de Aeronáutica e na Convenção de Chicago. A Anac disse que esse tipo de viagem fretada só poderia ser feita por empresa aérea brasileira ou colombiana.

“É isso mesmo. O avião tem que pertencer ao país de origem do voo ou ao país do destino. Porque senão o país onde a aeronave é matriculada fica sem responsabilidade a ser apurada”, explica Ivan Sant’Anna.

Por lei, todo avião antes de decolar, precisa informar um aeroporto alternativo caso não tenha condições de pousar no aeroporto de destino, além de ter pelo menos mais 30 minutos de combustível.

O voo decolou de Santa Cruz de la Sierra às 20h13 (horário de Brasília). Imagens do serviço de acompanhamento de voos Flightradar 24 mostram a aproximação do avião ao aeroporto internacional de Medellín.

O avião faz círculos, dá duas voltas no sentido anti-horário e, pouco antes da uma da manhã, o piloto avisou à torre de controle que tinha sofrido uma pane elétrica.

A velocidade do avião, pelos últimos registros, caiu à metade quando desapareceu do radar por volta de uma da manhã.

JN: O que você percebe dessas imagens, dessas informações de estranho que possa ajudar a explicar o que aconteceu?
Ivan Sant’Anna: Conversando hoje com vários pilotos experientes, de companhias europeias, eles dizem que se o avião já estava com um voo crítico, ele não podia ficar dando voltas. E quando ele acusa a pane elétrica, ele já está perdendo potência. O que está acontecendo com o avião é uma pane seca, quando os motores começam a ser apagar. Claro que, sem motor, não tem energia.

JN: As agências de notícias estão informando que um outro avião, da companhia VivaColombia, pediu prioridade para pousar nesse aeroporto. Isso pode ter, de alguma forma, contribuído para o acidente?
Ivan Sant’Anna: Pode. Se o outro pediu prioridade e ele não pediu prioridade. Quem pede prioridade primeiro tem prioridade. Se ele nem pediu, é aquela história  de ter feito um voo crítico com capacidade de voar de três horas para um voo de três horas. Segundo os pilotos com os quais eu conversei, ele errou. Tudo indica que ele errou. Não posso afirmar com certeza porque estamos no dia do acidente.

Informações da meteorologia mostram que às dez da noite, horário local, uma da manhã, horário de Brasília, caía uma chuva não muito forte nas proximidades do aeroporto de Medellín.

A visibilidade era boa, acima de 10 quilômetros, e os ventos fracos. Mais cedo recebemos as informações eram de que no momento do acidente tinha caído uma chuva muito forte. Mas imagens de satélite não indicam qualquer tempestade.

JN: Você acha que as condições meteorológicas tempo pode ter contribuído para o acidente?
Ivan Sant’Anna: Pode ter contribuído na medida que o piloto tinha um plano de voo muito curto. Tinha que dar tudo certo. Pode ter contribuído no meio do caminho e desviado um pouco. Mas no aeroporto as condições eram boas de pouso.

JN: O que revelam as fotos dos destroços?
Ivan Sant’Anna: As imagens mostram que o avião, apesar de bastante destruído, ele ainda teve alguns pedaços que ficaram mais ou menos inteiros, o que explica, tanto assim, que houve sobreviventes. Isso explica a baixa velocidade que o avião bateu, provavelmente porque o piloto tentou evitar a queda quando ele viu o terreno. A imagem mostra  claramente que o avião bateu de chapa.

JN: Mais cedo, recebemos informações que, pouco antes do acidente, o avião teria despejado combustível numa tentativa final. O senhor realmente acredita que isso aconteceu?
Ivan Sant’Anna: Não, tenho certeza que isso não aconteceu, porque o avião só despeja combustível na hora da saída, quando ele tem uma pane, ele tem que retornar, com o avião muito pesado, ele tem que despejar combustível. Na hora da chegada, ainda mais num voo crítico como aquele, não faz o menor sentido o piloto jogar combustível fora se ele está sem combustível

JN: À tarde, as equipes de resgate localizaram as duas caixas pretas. O que eles vão revelar sobre o acidente?
Ivan Sant’Anna: Uma delas vai revelar tudo o que foi falado na meia hora que precedeu o acidente, e a outra vai revelar tudo o que aconteceu ao longo de todo o voo, todos os comandos efetuados pelos pilotos.

JN: Diante de tudo isso, qual é a hipótese mais provável sobre a hipótese desse acidente:
Ivan Sant’Anna: A hipótese mais provável, segundo a conversa que eu tive com vários pilotos da Europa, com os quais eu me correspondo, é que o avião caiu porque o plano de voo dele era muito apertado. Ele caiu por falta de combustível. O que a gente chama de pane seca.