Lula já escolheu seu adversário e a direita deveria olhar para Michelle; por Ivandro Oliveira

A sucessão presidencial de 2026 continua em aberto, mas as pesquisas divulgadas nos últimos meses revelam um movimento que merece atenção. Tudo indica que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já encontrou o adversário que mais lhe interessa enfrentar: o senador Flávio Bolsonaro (PL). Não por acaso, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro reúne características que se encaixam perfeitamente na estratégia política do lulopetismo. Enquanto alguns levantamentos recentes mostram oscilações no cenário eleitoral, outros apontam Lula abrindo vantagem sobre Flávio em simulações de segundo turno, reforçando a percepção de que o senador enfrenta dificuldades para ampliar seu eleitorado além da base mais fiel do bolsonarismo.

Foi justamente sobre isso que escrevi há cerca de um ano neste mesmo espaço. Naquela oportunidade, defendi que Michelle Bolsonaro poderia se transformar em um dos nomes mais competitivos do campo conservador para disputar o Palácio do Planalto. O tempo passou e, independentemente das oscilações naturais das pesquisas, a ex-primeira-dama continua aparecendo como uma das figuras mais relevantes da oposição, frequentemente em condições de disputar o eleitorado de centro e de reduzir a rejeição que acompanha outros nomes da direita.

O diferencial de Michelle não está apenas nos números. Sua imagem pública foi construída em torno de valores que encontram ressonância em parcelas importantes da sociedade brasileira: família, religiosidade, discrição e lealdade política. Ao contrário de outros expoentes do bolsonarismo, ela não carrega o mesmo histórico de confrontos partidários e disputas institucionais, o que permite que seja vista por parte do eleitorado como uma alternativa de continuidade sem reproduzir integralmente a polarização que domina o país desde 2018.

É justamente nesse ponto que a direita brasileira precisa fazer uma reflexão estratégica. Se o objetivo for construir uma candidatura verdadeiramente competitiva contra Lula, talvez seja hora de abandonar preferências pessoais e enxergar a realidade eleitoral com maior pragmatismo. Michelle parece pronta para entrar em campo, mas sua viabilidade dependerá da capacidade do grupo político liderado por Jair Bolsonaro de colocar o projeto eleitoral acima de interesses individuais.

Isso inclui, inevitavelmente, os filhos do ex-presidente. Caso prevaleçam projetos familistas voltados apenas à preservação de espaços políticos, a oposição corre o risco de desperdiçar uma oportunidade relevante. A eleição de 2026 ainda está longe de ser decidida, mas uma conclusão parece cada vez mais evidente: Michelle Bolsonaro deixou de ser apenas uma personagem de apoio para se tornar uma das figuras centrais da sucessão presidencial. Resta saber se aqueles que comandam o bolsonarismo estarão dispostos a reconhecer os sinais emitidos pelo eleitorado.

 

Ivandro Oliveira é jornalista e sócio-proprietário do TÁ NA ÁREA

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