A disputa pelo Senado na Paraíba começa a ganhar contornos mais nítidos — e, ao mesmo tempo, mais imprevisíveis. A preço de hoje, há uma percepção praticamente consolidada no meio político: apenas uma das duas vagas parece ter dono definido. Trata-se da candidatura do atual governador João Azevêdo (PSB), que chega ao tabuleiro com um ativo raro — a força da própria gestão.
João Azevêdo construiu, ao longo dos últimos anos, uma imagem administrativa consistente, marcada por pacificação entre os poderes, entregas e estabilidade. Mesmo entre setores que divergem de sua orientação ideológica — situada no campo da centro-esquerda e alinhada ao presidente Lula (PT) — há reconhecimento de resultados concretos. Esse capital político não apenas o credencia como favorito natural a uma vaga no Senado, como também reduz significativamente o grau de incerteza em torno de sua postulação.
Se a primeira cadeira parece encaminhada, é na disputa pela segunda vaga que o cenário ganha densidade e tensão. É nesse espaço que surge, com cada vez mais nitidez, o nome de Nabor Wanderley (Republicanos). Prefeito de Patos e figura em ascensão, Nabor vem ampliando sua base de apoio em ritmo consistente, conquistando prefeitos em diversas regiões do estado e estruturando uma pré-campanha que já demonstra capilaridade e organização.
O crescimento de Nabor não é apenas numérico — ele é qualitativo. Sua presença mais frequente no debate político e nos bastidores eleitorais começa a alterar o equilíbrio da disputa. E isso ajuda a explicar o movimento de um outro personagem central nesse jogo: Veneziano Vital do Rêgo (MDB). Até então visto como um candidato com caminho relativamente confortável à reeleição, Veneziano passou a adotar um tom mais incisivo, sinal claro de que o ambiente mudou. Quando um adversário começa a aparecer no retrovisor com consistência, a estratégia inevitavelmente se ajusta.
Há ainda um elemento que eleva o patamar da candidatura de Nabor Wanderley: o peso político de seu filho, Hugo Motta (Republicanos), na presidência da Câmara dos Deputados. Não se trata de um detalhe menor. Em Brasília, posições institucionais dessa magnitude ampliam a capacidade de articulação, atração de apoios e influência sobre decisões estratégicas. Na prática, isso significa mais musculatura política, mais visibilidade e maior poder de mobilização — fatores decisivos em uma disputa majoritária.
Nesse contexto, a comparação com a eleição de Daniella Ribeiro (PP) surge de forma quase inevitável. À época, Daniella era uma deputada estadual com alcance ainda limitado junto ao grande eleitorado, mas conseguiu viabilizar sua eleição ao Senado impulsionada pela força política de seu irmão, Aguinaldo Ribeiro. O paralelo não é perfeito, mas ajuda a ilustrar como estruturas familiares e redes de poder podem ser determinantes em eleições desse porte.
O que se desenha, portanto, é um cenário em que a segunda vaga ao Senado está longe de qualquer definição. Há um campo aberto, competitivo e em franca movimentação, onde alianças, posicionamentos e estratégias ainda serão decisivos. Se João Azevêdo larga com ampla vantagem na corrida por uma das cadeiras, a outra promete ser palco de uma disputa intensa — daquelas que se resolvem nos detalhes, nos bastidores e, sobretudo, na capacidade de cada candidato de transformar força política em voto.
Na Paraíba, o jogo começou. E, como toda boa disputa eleitoral, ainda reserva surpresas.




