Há silêncios que gritam. E poucos são tão constrangedores quanto o silêncio de parte do chamado feminismo global diante da repressão brutal sofrida pelas mulheres iranianas. Mulheres presas por mostrarem o cabelo. Espancadas por exigirem o direito elementar de existir fora da tutela do Estado teocrático. Mortas por desafiarem uma polícia moral que não tem nada de moral — apenas poder.
Ainda assim, onde estão as grandes organizações feministas internacionais? Onde estão as celebridades engajadas, os manifestos com letras garrafais, as campanhas virais, os discursos inflamados nas premiações e redes sociais? Onde estão as entidades nacionais, no caso do Brasil, que não colocam em pauta o caso iraniano? Em muitos casos, o que se vê é um constrangido desvio de olhar, um silêncio cauteloso, quase cúmplice.
A pergunta é inevitável: por quê?
Talvez porque denunciar a opressão no Irã não renda curtidas suficientes. Talvez porque não se encaixe no enquadramento ideológico confortável que divide o mundo entre “opressores ocidentais” e “oprimidos não ocidentais”, como se a violência contra mulheres pudesse ser relativizada pelo CEP do agressor. Ou talvez porque o medo de “parecer imperialista” tenha se transformado numa mordaça moral.
É um paradoxo cruel. Em nome do respeito cultural, tolera-se o intolerável. Em nome da luta contra o colonialismo, abandona-se mulheres reais, de carne e osso, que pagam com o corpo e com a vida por ousarem reivindicar liberdade. Como se direitos humanos fossem um produto contextual, negociável, dependente da geopolítica e do humor acadêmico.
Direitos das mulheres não são pauta seletiva. Não podem ser defendidos apenas quando o opressor fala inglês, usa terno e mora no Ocidente. Não podem desaparecer quando o algoz veste turbante ou governa em nome de uma religião. Ou são universais, ou não são direitos — são slogans.
A causa das iranianas deveria ser óbvia. Inescapável. Inegociável. Não exige tradução ideológica nem nota de rodapé teórica. Exige apenas um princípio simples: nenhuma mulher deve ser presa, espancada ou morta por escolher como se vestir, pensar ou viver.
Quando o feminismo se cala diante disso, ele deixa de ser emancipador e passa a ser seletivo. Deixa de ser ético e se torna estratégico. Troca a solidariedade pela conveniência, a coragem pelo cálculo, a universalidade pelo clube.
Talvez seja hora de dizer o óbvio, ainda que incomode: não há nada de progressista em fechar os olhos para a repressão só porque ela acontece fora do eixo ocidental. Não há nada de anticolonial em abandonar mulheres à própria sorte. E não há nada de feminista em escolher quais mulheres merecem defesa.
As iranianas não precisam de tutela ideológica. Precisam de voz, apoio e coerência. E qualquer defesa séria dos direitos humanos começa exatamente aí: quando o silêncio deixa de ser opção.
Ivandro Oliveira é jornalista




