O Brasil voltou!

Foto: Nelson Jr./SCO/STF

O Brasil voltou! A afirmação, claro, contém ironia e ilustra bem o atual momento do país acostumado aos jeitinhos e fadado a entronizar a corrupção como sua principal bandeira. O escândalo do Banco Master e todo o enredo protagonizado por Vorcaro e outros personagens oniscientes e onipresentes à crônica do poder demonstram o quanto o Brasil parece não ter mais jeito.

Contrariando o esperado para um caso dessa magnitude, o relator no Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, decidiu elevar o grau de sigilo da ação movida pela defesa de Vorcaro a um patamar raríssimo: sigilo máximo.Com isso, praticamente tudo — desde movimentações, petições, decisões, até os nomes das partes — tornou-se inacessível, salvo para poucos privilegiados: advogados envolvidos, o Ministério Público (quando notificado) e servidores do gabinete de Toffoli. 

Em outras palavras: o que poderia ser um exemplo de justiça e transparência se transformou em uma “caixa-preta”. E em se tratando de um escândalo financeiro que impacta investidores, economia e confiança no sistema — e com implicações políticas evidentes — a opacidade soa como um escárnio.

Aliás, sobre o Vorcaro, vale salientar que a desembargadora que o soltou já foi defendida pelo mesmo escritório de advocacia que representa o banqueiro. Um detalhe que não deve ser mera coincidência e tampouco conspiração dos astros. Ou seja: o homem apontado como senhor da bagunça bilionária está livre — enquanto o processo mais importante, que poderia revelar os nomes, os contratos, o papel de cada “protagonista”, segue lacrado.

As relações entre Vorcaro e integrantes do STF, do Judiciário e do establishment financeiro saltam aos olhos. Há registros de jantares luxuosos pagos por Vorcaro em Nova York, com a presença de ministros do STF — entre eles, os que hoje decidem o destino do caso. 

Além disso, o próprio banco havia contratado figuras influentes como consultores e conselheiros — o que levanta a suspeita de que o Master não era apenas um banco de risco, mas um motor de “porta giratória” entre capital, poder e toga.

Quando instituições financeiras passam a se confundir com o Judiciário, quando elites se misturam em jantares, consultorias e decisões judiciais — talvez, e apenas talvez — o que está em jogo não seja só dinheiro. É privilégio, impunidade, poder protegido.

Isso acende um alerta: se a Justiça se transforma numa zona de opacidade, quem assiste — e paga — é o cidadão comum, aquele que confiou, investiu, acreditou no sistema. Enquanto isso, investigados, acusados e acusadores — todos podem participar da blindagem.

Não se trata de teoria da conspiração quando os fatos se acumulam, as coincidências se multiplicam e o sigilo aparece nos momentos mais convenientes.

É a velha lógica: joga-se o problema para debaixo do tapete, fecha-se as cortinas, preservam-se os nomes, e decide-se quem pode ver — ou não. Quem ousar questionar, denunciar, exigir transparência — bom, vai ser tratado como rebelde. Talvez até preso.

E no fim, o que resta não é justiça. É medo, desconfiança e a certeza de que, para alguns, as regras do jogo nunca foram as mesmas.

Se a Justiça se fecha atrás de sigilo absoluto quando o escândalo envolve poder, influência e dinheiro, então estamos diante de uma deriva perigosa: a institucionalização da impunidade.

Quem não vê isso está dormindo enquanto a casa desaba. Quem vê, precisa gritar — antes que o silêncio vire sentença. Definitivamente, o Brasil, do pós-Lava Jato, voltou!

Ivandro Oliveira é jornalista

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