Não adianta falar apenas para uma bolha; por Ivandro Oliveira

Bolsonaro e os filhos Flávio, Carlos, Eduardo e Rena. Foto reprodução twitter @BolsonaroSP

Ainda estamos em junho. Faltam mais de três meses para a eleição presidencial e qualquer tentativa de decretar vencedores ou derrotados seria precipitada. A história política brasileira está repleta de reviravoltas, candidaturas que cresceram na reta final e favoritos que tropeçaram quando menos se esperava. Mas uma constatação já pode ser feita: alguma coisa não vai bem com a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL).

Assim como seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio aposta quase exclusivamente no discurso antipetista. O problema é que o Brasil de 2026 não é mais o mesmo de 2018. O sentimento de rejeição ao PT continua existindo e mantém uma parcela significativa do eleitorado mobilizada, mas, sozinho, já não parece suficiente para construir uma maioria nacional. O antipetismo segue vivo, porém cada vez mais restrito a um nicho político que se retroalimenta nas redes sociais e nos ambientes onde todos já pensam da mesma forma.

O desafio para Flávio Bolsonaro é justamente romper essa bolha. Eleições presidenciais não são vencidas apenas com a militância mais fiel. É preciso conquistar os eleitores independentes, moderados e aqueles que transitam pelo centro político. E esse segmento do eleitorado demonstra sinais claros de fadiga tanto em relação ao lulismo quanto ao bolsonarismo. Não por acaso, nomes que tentaram ocupar esse espaço, como Romeu Zema e Ronaldo Caiado, também não conseguiram despertar entusiasmo suficiente para se consolidar como alternativa viável.

O fato é que falta à candidatura bolsonarista algo mais substancial do que a simples oposição ao PT. Falta uma agenda nacional clara, um projeto de país capaz de convencer os brasileiros de que existe um caminho melhor do que o atual. Criticar Lula pode garantir aplausos dos já convertidos, mas dificilmente amplia fronteiras eleitorais. O eleitor quer saber o que será feito para acelerar o crescimento econômico, melhorar os serviços públicos, enfrentar a violência e reduzir as desigualdades. Até agora, essas respostas continuam pouco visíveis.

Se esse cenário permanecer inalterado, o maior beneficiado será justamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo enfrentando desgastes naturais de governo e índices de aprovação longe da unanimidade, Lula segue ocupando o espaço de quem possui uma narrativa mais estruturada para apresentar ao eleitorado. E, diante de uma oposição que ainda não encontrou um discurso capaz de dialogar para além do próprio campo ideológico, o caminho para um quarto mandato presidencial torna-se cada vez menos improvável.

 

Ivandro Oliveira é jornalista

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