Na véspera do Dia do Trabalhador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez o que políticos fazem de melhor: ocupou rede nacional para apresentar novidades que, no fundo, soam como reprises bem editadas de temporadas anteriores.
O roteiro veio completo. Primeiro ato: a defesa de medidas que, vendidas como pragmáticas, parecem ignorar o espírito do próprio momento em que são anunciadas. A escala 6×1, por exemplo, surge quase como uma homenagem involuntária ao passado — aquele em que descansar era um luxo e não um direito em debate. Nada diz “valorização do trabalhador” como normalizar uma rotina que o mantém permanentemente a um dia do cansaço crônico. Um discurso digno dos mais áureos populistas que essa terra já viu!
Segundo ato: o relançamento de programas de renegociação de dívidas, agora em versão atualizada — porque, como todo produto brasileiro, basta acrescentar um “2.0” para parecer novo. A proposta é simples e engenhosa: o cidadão, já sufocado por dívidas, recebe um empurrão para reorganizar a própria inadimplência. Na prática, funciona como um elegante sistema de irrigação financeira — o dinheiro sai com dificuldade do bolso do devedor, dá uma breve volta retórica pelo governo e desemboca, disciplinadamente, no caixa de sempre.
É aqui que a ironia ganha contornos quase didáticos. Vende-se alívio, entrega-se fôlego curto. Promete-se recomeço, oferece-se renegociação. É menos uma saída do labirinto e mais uma sinalização de que ele agora tem placas melhores.
Terceiro ato: o clássico embate entre nós contra eles, “povo” e “elite”. Nenhum discurso estaria completo sem esse elemento quase folclórico da política nacional. As elites, invariavelmente, “torcem o nariz”; o governo, por sua vez, se apresenta como intérprete exclusivo das aspirações populares. O problema é que, repetido à exaustão, o argumento começa a soar menos como denúncia e mais como muleta narrativa — útil para explicar qualquer resistência, conveniente para evitar nuances.
O conjunto da obra é familiar. Há anúncios que aliviam sintomas, retórica que reforça identidades e uma encenação cuidadosamente alinhada ao calendário simbólico. Funciona? Em certa medida, sim — sobretudo no curto prazo, onde percepção muitas vezes pesa mais que estrutura.
Mas fica a sensação de que o país assiste, mais uma vez, a uma versão remasterizada de velhas soluções: melhor iluminadas, melhor embaladas, mas essencialmente presas ao mesmo enredo. E, como todo espectador que já conhece a história, resta a dúvida incômoda — se o final também já não está dado.
Ivandro Oliveira é jornalista




