A noite prometia brilho, tamborim e narrativa épica. Mas terminou com gosto de constrangimento. A homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Marquês de Sapucaí entrou para o anedotário político como um daqueles momentos em que o excesso de confiança tropeça no próprio figurino.
O Carnaval, esse território onde o Brasil costuma rir de si mesmo, virou palanque. E palanque, em ano pré-eleitoral, é terreno minado. Ao transformar a avenida em vitrine personalista, correu-se o risco de confundir celebração cultural com propaganda antecipada — algo que, em tempos de lupa jurídica permanente, pode render dor de cabeça e até questionamentos sobre inelegibilidade. No país em que cada gesto é filmado por mil celulares e interpretado por dez mil advogados, a linha entre homenagem e campanha é fina como pluma de fantasia.
Mas o mico não parou aí. O Partido dos Trabalhadores, que já enfrenta resistência histórica em segmentos conservadores, conseguiu um feito improvável: ampliar o distanciamento junto ao eleitorado evangélico. Para muitos fiéis, a associação explícita entre fé, política e espetáculo carnavalesco reforça desconfianças antigas. Num Brasil onde a pauta religiosa pesa nas urnas, subestimar sensibilidades é um luxo que poucos partidos podem se dar.
E como se a ironia precisasse de um gran finale, a escola responsável pela homenagem, a Acadêmicos de Niterói, acabou rebaixada. No roteiro da política brasileira, que já flerta com o realismo mágico, faltava mesmo esse detalhe tragicômico: a apoteose virar descenso.
Não se trata de demonizar o Carnaval — patrimônio cultural e expressão legítima de crítica, exaltação e memória. A Sambódromo da Marquês de Sapucaí sempre foi palco de enredos políticos, sociais e históricos. O problema talvez esteja na medida. Entre a homenagem e o endeusamento, há um passo. Entre a celebração e o cálculo eleitoral, há uma fronteira.
No fim das contas, o episódio deixa uma lição antiga: na política, timing é tudo. E nem sempre o que parece aplauso garantido na avenida se traduz em ponto no mapa eleitoral. Às vezes, o desfile passa. O vídeo viraliza. A oposição agradece. E o mico, ah, esse fica para a história.




