Depois que a vergonha foi embora; por Ivandro Oliveira

O anúncio do fim da Lava Jato, em 2020, não foi apenas o encerramento de uma operação que colocou atrás das grades de ex-presidente da República ao maior empreiteiro do país. Foi um sinal. Um gesto político carregado de simbolismo. Jair Bolsonaro, no afã de proteger os filhos, celebrou como quem exibe um troféu pessoal — e talvez fosse mesmo. Naquele instante, não caiu só uma força-tarefa; caiu o último constrangimento público que ainda obrigava certos personagens a disfarçar.

No vácuo deixado pelo desmonte da investigação, a fraude encontrou terreno fértil. Onde antes havia risco, instalou-se o conforto. Onde havia medo de manchete, passou a reinar a certeza da impunidade. A Lava Jato, com todos os seus erros e excessos, mantinha o sistema em estado de alerta. Sem ela, o alerta virou convite.

É assim que esquemas não apenas sobrevivem — eles se sofisticam. O chamado “caso Master” não brota do nada. Ele germina num ambiente onde a fiscalização foi desmontada, onde os freios institucionais foram afrouxados e onde a vergonha, essa velha conhecida da vida pública, pediu exoneração sem aviso prévio.

O retrato mais escancarado dessa degradação talvez seja o resort ligado ao ministro Dias Toffoli. Um paraíso de lazer que, segundo reportagem do Metrópoles, abriga um cassino clandestino em pleno funcionamento: mesas de blackjack, máquinas de apostas, tudo operando como se estivesse em Mônaco — mas sem licença, sem lei e sem pudor. Ali, o local já ganhou apelidos que dispensam legenda: “resort do Toffoli.”

Enquanto isso, em outra ponta do jornalismo investigativo, o Estadão revela a versão doméstica do mesmo enredo. A cunhada do ministro nega qualquer ligação com a venda milionária do imóvel. Diz não ter recursos “nem para arrumar a própria casa”. A frase é forte. Não pela explicação — mas pelo contraste. Porque, no Brasil de hoje, casas caem aos pedaços enquanto resorts florescem à sombra do poder.

Não se trata de coincidência. Trata-se de método. Quando a lei perde força, o dinheiro ganha voz. Quando a investigação se cala, os esquemas falam alto. E quando o discurso oficial passa a tratar o combate à corrupção como exagero moralista, o recado está dado: vale tudo, desde que seja longe do olhar público — ou, se possível, bem perto do poder.

A Lava Jato não era perfeita. Nenhuma instituição é. Mas sua existência impunha um custo ao crime de colarinho branco. Sem esse custo, o sistema voltou ao seu estado natural: confortável para os de cima, implacável para os de baixo.

O mais grave não é o cassino clandestino, nem a venda nebulosa, nem o cinismo das versões. O mais grave é a naturalização. É o país que assiste, lê, comenta — e segue. Como se fosse só mais uma terça-feira.

Talvez seja. Mas é exatamente assim que a normalidade vai sendo sequestrada. Não com um golpe ruidoso, mas com aplausos discretos ao fim de quem ainda ousava incomodar.

E quando a vergonha vai embora, não sobra nem o constrangimento de fingir inocência.

Ivandro Oliveira é jornalista

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