CRÔNICA DA SEMANA: Ilustre ausência; por Ivandro Oliveira

Entre a fumaça dos bastidores e o silêncio estratégico de Brasília, a Paraíba vai descobrindo que talvez Lula seja o grande eleitor que não aparecerá na foto.

O presidente e a direção nacional do PT parecem ter compreendido cedo demais aquilo que os aliados locais ainda tentam empurrar para depois: na Paraíba de 2026, subir num palanque é descer de outro. E, quando o jogo envolve três pré-candidatos ao Senado orbitando o lulismo — João Azevêdo, Nabor Wanderley e Veneziano Vital — qualquer gesto presidencial pode virar uma pequena guerra civil entre aliados.

A saída encontrada pelo Planalto parece quase literária: a ausência.

Não vir é, talvez, a forma mais eficiente de Lula permanecer com todos. Porque, se desembarca ao lado de Lucas Ribeiro e abraça Nabor, arrisca azedar de vez a relação com Veneziano. Se sinaliza para Veneziano, cria fissuras no grupo governista. E se tenta equilibrar todos no mesmo palanque, transforma o ato político num constrangimento televisionado.

Daí a estratégia do “apoio sem presença”. Lula acena de longe, o PT nacional fala em unidade, e a militância que resolva o resto no voto casado ou dividido.

João Azevêdo ainda cultiva a expectativa de um gesto mais explícito. Sonha com Lula no mesmo palco de Lucas Ribeiro, consolidando uma chapa inteira sob o guarda-chuva do petismo nacional — inclusive com Nabor Wanderley no pacote. Seria a fotografia perfeita para o governador: a sucessão estadual carimbada pela maior liderança popular da esquerda brasileira.

Mas a política raramente entrega fotografias perfeitas.

Do outro lado, Veneziano joga com o tempo. A aposta do senador é quase matemática: se o Progressistas hesitar ou negar apoio à reeleição de Lula nacionalmente, abre-se uma avenida para revisão de alianças na Paraíba. Veneziano acredita que Brasília ainda não fechou completamente a porta. E, em política, porta entreaberta costuma virar negociação.

Só que há um detalhe importante mudando o humor desse xadrez: Lula já não é mais aquele ativo eleitoral incontestável de outros ciclos. As pesquisas recentes e o desgaste natural de governo reduziram um pouco a corrida desesperada pelo selo presidencial. O apoio ainda pesa, claro. Mas talvez não defina sozinho uma eleição estadual como antes.

Isso altera a temperatura da disputa.

O que antes seria uma batalha feroz por um abraço de palanque, hoje parece mais uma disputa cuidadosa para não herdar desgaste em excesso. Há um cálculo frio em curso: quanto Lula soma? E quanto pode tirar?

Edinho Silva, ao defender uma postura mais cautelosa do PT, parece ter traduzido exatamente esse momento. O partido sinaliza alinhamento prioritário com Lucas Ribeiro (PP), preserva João Azevêdo (PSB) como principal nome ao Senado e deixa o segundo voto meio solto, quase terceirizado à vontade da militância.

Só que alianças fracionadas costumam produzir campanhas fragmentadas. E campanhas fragmentadas têm dificuldade para transmitir ao eleitor a sensação de rumo.

No fim das contas, talvez a maior presença de Lula na eleição paraibana seja justamente sua ausência física. Um presidente que evita escolher publicamente para não perder ninguém. Um PT que tenta caber em vários palanques ao mesmo tempo. E uma Paraíba onde todos querem o apoio de Lula — desde que ele não abrace demais o adversário ao lado.

Ivandro Oliveira é jornalista

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