Comensais da República; crônica da semana por Ivandro Oliveira

DANIEL VORCARO. Foto: Reprodução/PF

A mão que afaga é a mesma que apedreja”. O verso de Augusto dos Anjos, escrito há mais de um século, atravessa o tempo para iluminar um dos mais antigos vícios da República brasileira. Nas mesas fartas do poder, onde o povo raramente é convidado a sentar, multiplicam-se os brindes discretos, os favores elegantes e as amizades oportunas. O escândalo que emerge das relações entre Daniel Vorcaro e figuras influentes da política, do Judiciário e do sistema financeiro não revela apenas um caso isolado. Expõe um modo de funcionamento. Um hábito. Quase uma cultura.

Enquanto o trabalhador comum conta moedas para pagar a prestação da casa ou abastecer o carro, há uma aristocracia de cargos e gravatas que circula por hotéis luxuosos, voos privados, restaurantes exclusivos e festas regadas a uísques raros. Nada disso é oferecido por generosidade. O banqueiro não distribui favores por caridade, assim como o poder raramente concede atenção sem esperar algo em troca. A moeda dessa relação nunca foi o dinheiro; sempre foi a influência.

Quando os vínculos vêm à tona, entretanto, instala-se o teatro da inocência. Surgem os esquecimentos convenientes, as explicações improváveis e os discursos indignados de quem se julga vítima da própria exposição. Fingem surpresa diante do que todos sabiam. Fazem-se de distraídos diante do evidente. E o fazem porque conhecem o funcionamento da engrenagem: a proteção mútua dos que pertencem ao mesmo círculo, a certeza de que a indignação popular é intensa, mas passageira, e de que a impunidade costuma sobreviver aos escândalos.

O caso Master deveria ser maior que qualquer disputa ideológica. Não é uma questão de direita ou esquerda, governo ou oposição. É uma questão de decência pública. Quando a República se transforma em salão de privilégios, o prejuízo não é apenas financeiro; é moral. E talvez seja justamente isso que mais assuste. Porque o Brasil não sofre apenas com a corrupção dos cofres, mas com a corrosão dos valores. E uma nação pode reconstruir pontes, estradas e edifícios. Mais difícil é reconstruir a confiança quando ela se torna apenas mais um item do cardápio dos comensais do poder.

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