Há uma liturgia silenciosa no poder que diz que quando o café já não é serivdo quente, é que o governo está no fim. No terceiro andar do Palácio do Planalto, em Brasília, o café sempre chega quente — ou, pelo menos, deveria. Durante muito tempo, pareceu que ali o calor era permanente, imune às estações da política. Mas até o café mais forte, se esquecido, esfria.
Parecia que essa regra não alcançaria Luiz Inácio Lula da Silva (PT), dono de reconhecida popularidade. Nem mesmo em 2005, quando o mensalão soprou ventos frios sobre o governo. A economia aquecida e os números do Datafolha mantinham a chama acesa. Lula atravessou o inverno e saiu reeleito. Anos depois, viveu o auge: popularidade em alta, terreno firme, sucessora eleita e café renovado antes de esfriar.
Quatro anos depois, o cenário era quase de verão permanente. Popularidade em alta, economia em expansão e a capacidade política de eleger uma sucessora sem histórico eleitoral, como Dilma Rousseff. O café? Servido quente, forte e em abundância — daqueles que ninguém ousa deixar esfriar.
Mas o tempo, esse barista implacável, muda a receita.
Na semana que passou, o Planalto sentiu o gosto de um café menos encorpado. A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal no Senado e, logo depois, a derrubada de um veto presidencial relacionado aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro, não foram apenas episódios isolados. Soaram como aquele tilintar discreto da colher na xícara — um aviso de que algo já não está na temperatura ideal.
Não se trata de crise aberta, nem de ruptura institucional. Mas de sinais. Pequenos, porém eloquentes. O Congresso, mais assertivo, parece testar novos limites. E o governo, por sua vez, descobre que a antiga habilidade de manter tudo aquecido exige agora mais do que memória política — exige recalibragem.
Em 2026, o cenário é outro. A economia não desanda, é verdade, mas também não embala corações. E, talvez mais preocupante para quem vive de termômetro político, a desaprovação insiste em não dar trégua — algo que não combina com projetos de reeleição.
No fim das contas, governar também é isso: administrar temperaturas. Saber quando acender o fogo, quando baixar a chama e, principalmente, perceber quando o café já não está tão quente quanto parece.
Porque, em Brasília, até o silêncio de uma xícara esquecida pode dizer muita coisa.




