O desfecho da eleição de 2026 na Paraíba começou muito antes de o Tribunal Regional Eleitoral totalizar os votos. A reeleição de Lucas Ribeiro (PP), já no primeiro turno, com 64,30% dos votos válidos, e a eleição de João Azevêdo (PSB) para o Senado podem ser lidas como a expressão eleitoral de um sentimento construído ao longo dos últimos anos: a percepção, por uma parcela majoritária do eleitorado, de que o governo chegou à ponta. Não apenas por discursos, slogans ou peças publicitárias, mas por obras, programas e serviços que passaram a fazer parte do cotidiano de diferentes regiões do estado.
Foi esse inventário administrativo que chegou às urnas. O Polo Turístico Cabo Branco ganhou corpo; a Ponte do Futuro saiu do discurso para integrar a agenda concreta de infraestrutura; programas como Tá na Mesa e Opera Paraíba alcançaram milhares de pessoas; a saúde avançou em direção ao interior; novos equipamentos hospitalares foram implantados; e obras de mobilidade modificaram a paisagem da Região Metropolitana e de municípios do interior. As travessias urbanas talvez sejam uma das imagens mais simbólicas dessa estratégia: o asfalto chegando a cidades e comunidades que durante décadas pouco viram grandes investimentos estaduais. O próprio governo registra, entre seus projetos estruturantes, investimentos bilionários no Polo Turístico e centenas de milhões de reais em novas ligações rodoviárias e equipamentos de saúde.
É nesse contexto que se explica politicamente a votação das urnas. João Azevêdo apareceu para seus eleitores como o principal formulador e condutor desse ciclo administrativo, enquanto Lucas Ribeiro conseguiu apresentar-se como a continuidade de um projeto sem transmitir simplesmente a imagem de repetição. João recebeu 1.391.994 votos para o Senado. Lucas foi além na disputa pelo governo: 1.470.252 votos, alcançando 64,30% dos válidos e encerrando a eleição estadual no primeiro turno. São números que dão dimensão objetiva à força eleitoral alcançada pelo grupo governista.
Mas reduzir a vitória de Lucas exclusivamente à herança de João seria uma leitura incompleta. Ao assumir o governo e, depois, enfrentar sua primeira eleição para comandá-lo diretamente pelo voto, ele precisava construir identidade própria. Apostou na juventude, na presença física, no ritmo de agenda e na ideia de continuidade com renovação. Durante a campanha, procurou transmitir disposição no corpo a corpo e segurança nos debates, enquanto sua comunicação buscou associar sua imagem ao conceito de um governo em movimento. A campanha conseguiu, assim, transformar a continuidade administrativa em argumento eleitoral sem apagar a figura do candidato.
Há ainda um componente que merece atenção: campanhas majoritárias também são decididas pela capacidade de evitar erros. Lucas atravessou a disputa mantendo uma estratégia relativamente disciplinada, sustentada por uma estrutura política ampla, comunicação de governo e marketing eleitoral voltado à associação entre obras, resultados e futuro. Em vez de romper com o legado recebido, reivindicou-o e tentou acrescentar a ele sua própria identidade. O tamanho da votação sugere que essa mensagem encontrou ressonância expressiva entre os eleitores.
A eleição de 2026 deixa, portanto, uma fotografia política bastante clara da Paraíba daquele momento. O eleitorado não julgou apenas candidatos; julgou também um ciclo administrativo. E a maioria decidiu pela continuidade. João Azevêdo saiu das urnas para o Senado e Lucas Ribeiro permaneceu no Palácio da Redenção legitimado diretamente pelo voto. Mais do que uma simples transferência de capital político, o resultado mostra como obras, serviços públicos, alianças, comunicação e percepção de presença governamental podem convergir eleitoralmente.
No fim das contas, talvez esteja aí a principal explicação daquele 4 de outubro: antes de pedir continuidade nas urnas, o grupo governista trabalhou para construir uma narrativa de continuidade nas ruas. Quando as urnas foram abertas, essa percepção já estava formada. A eleição apenas a transformou em números.




