Hoje vou atrás de uma coisa improvável: encontrar uma boa notícia escondida dentro de uma derrota. O Brasil caiu na Copa. Mais uma vez, uma seleção europeia cruzou o caminho da Canarinho e interrompeu o sonho do hexa, repetindo um roteiro que se tornou frequente desde 2006. Dentro de campo, sobraram frustração, críticas e a sensação de que o futebol brasileiro ainda busca reencontrar o protagonismo que um dia parecia natural.
Mas foi justamente fora das quatro linhas que surgiu um fato digno de registro. Em um momento em que talvez o brasileiro estivesse mais descrente da Seleção em toda a história recente, algo inesperado aconteceu: a camisa da Seleção Brasileira voltou a ser motivo de orgulho para pessoas de todas as posições políticas. Esquerda e direita, que hoje parecem incapazes de concordar sobre qualquer assunto, voltaram a vestir a mesma amarelinha sem constrangimento, sem disputa e sem a necessidade de explicar o porquê.
Durante anos, um dos maiores símbolos nacionais acabou sendo arrastado para o centro da polarização política. A camisa que representava conquistas, emoção e identidade nacional passou a carregar significados que dividiam os brasileiros. Aos poucos, muita gente deixou de usá-la para evitar interpretações ideológicas. Nesta Copa, porém, a “verde e amarelo”, como fazia questão de dizer o saudoso Mario Jorge Lobo Zagallo, voltou a cumprir sua função original: representar um país inteiro, e não apenas um grupo.
É claro que o futebol, sozinho, não resolverá as profundas divergências que marcam o Brasil. A polarização continuará existindo, e o debate político seguirá intenso em 2026. Mas símbolos nacionais pertencem à nação, não a partidos, governos ou movimentos. Talvez a eliminação tenha sido amarga dentro de campo, mas deixou uma pequena vitória fora dele: a recuperação de um patrimônio afetivo que sempre foi de todos os brasileiros.
No fim das contas, perder uma Copa nunca será motivo de comemoração. Mas, se era preciso encontrar uma boa notícia escondida na derrota, ela está justamente na arquibancada, nas ruas e nas redes sociais: a camisa da Seleção voltou a unir mais do que dividir. E, num Brasil tão fragmentado, isso pode não valer uma taça, mas certamente já representa uma conquista.
Ivandro Oliveira é jornalista e sócio-proprietário do TÁ NA ÁREA




