O retorno dos trabalhos legislativos deveria ser, por essência, um rito democrático. Um momento simbólico em que o Parlamento se apresenta à sociedade, abre suas portas, ouve a mensagem do Executivo e reafirma seu compromisso com o debate público, a transparência e a representação popular. Mas, ao que tudo indica, a Assembleia Legislativa da Paraíba resolveu fazer diferente — e para pior.
Ao optar por realizar, de forma remota, a sessão de abertura do ano legislativo de 2026, a Casa de Epitácio Pessoa decidiu voltar no tempo. Mais precisamente aos dias sombrios da pandemia de Covid-19, quando o distanciamento era necessidade sanitária e não conveniência política. Em pleno 2026, com a normalidade institucional restabelecida e o país funcionando presencialmente, a “Casa do Povo” simplesmente fechou suas portas no momento em que deveria escancará-las.
A ironia é inevitável. Após quase dois meses de recesso parlamentar, período em que os ilustres deputados estiveram longe do plenário, a Assembleia escolhe iniciar o ano legislativo à distância, desprezando o rito inaugural que marca o começo dos trabalhos. Um rito que inclui, tradicionalmente, a leitura da mensagem do governador, instrumento fundamental para apresentar as diretrizes do Executivo e balizar o debate legislativo ao longo do ano.
Enquanto isso, no restante do país, o exemplo foi outro. Senado Federal e Câmara dos Deputados retomaram suas atividades de forma presencial, reafirmando o papel do Parlamento como espaço de diálogo, confronto de ideias e, sobretudo, presença física diante da sociedade. A Assembleia paraibana, ao contrário, preferiu a comodidade da tela, passando uma mensagem ruim — e perigosa.
O gesto é ainda mais preocupante quando se observa o calendário. 2026 já nasce com o estigma de ser um ano de baixa produtividade legislativa, por se tratar de um ano eleitoral. Natural que muitos parlamentares estejam mais preocupados com palanques do que com projetos, mais atentos às bases eleitorais do que ao plenário. Ainda assim, espera-se, no mínimo, respeito às formalidades institucionais e ao simbolismo do Parlamento.
Ao iniciar o ano com uma sessão remota, a Assembleia Legislativa da Paraíba não apenas ignora esse simbolismo como sinaliza, desde cedo, que o ano legislativo tende a ser morno, burocrático e distante da população. O recado é claro: se nem na abertura oficial há disposição para ocupar o plenário, o que esperar dos meses seguintes?
A Casa de Epitácio Pessoa perdeu uma oportunidade de afirmar sua relevância institucional e optou por um gesto que transmite desânimo, descaso e falta de compromisso com a liturgia democrática. Para os paraibanos, fica a sensação incômoda de que 2026 começou mal — e de que, infelizmente, não há muitos motivos para esperar um ano animador no Parlamento estadual.




