O Brasil precisa aprender a gastar; por Ivandro Oliveira

Foto: José Cruz/Agência Brasil

A relação entre o descontrole fiscal e a política social revela um problema mais profundo do Estado brasileiro: nossa dificuldade de transformar recursos públicos em resultados duradouros. Falhamos ao diagnosticar problemas, desenhar soluções com rigor técnico, avaliar seus efeitos com independência e corrigir o que não funciona. Nesse ambiente, lançar um programa costuma render mais dividendos políticos do que aperfeiçoar uma política existente. O anúncio ocupa o lugar da avaliação, enquanto a expansão do orçamento passa a ser apresentada como prova de compromisso com a população.

Habitação, renegociação de dívidas e educação ajudam a compreender esse desafio, mas exigem uma crítica precisa. O déficit habitacional caiu em 2024, embora ainda atingisse 5,77 milhões de moradias; portanto, seria incorreto tratar a trajetória como simples ausência de avanços. Já o endividamento das famílias chegou a 50,1% da renda acumulada em doze meses, em agosto de 2026, segundo o Banco Central. E o Pisa 2022 mostrou a persistência de graves dificuldades de aprendizagem. Esses indicadores não demonstram, isoladamente, o fracasso de cada programa, mas reforçam a necessidade de avaliar seu alcance, seus custos e seus limites.

A mesma cobrança deve alcançar os incentivos à indústria naval, à Zona Franca de Manaus e ao desenvolvimento regional. Subsídios precisam demonstrar quais benefícios produzem, quem efetivamente os recebe e em que condições devem continuar. Quando uma iniciativa entrega menos do que promete, sua renovação não pode ser automática. Sem metas verificáveis e avaliações independentes, o risco é acumular medidas sobrepostas, preservar interesses organizados e ampliar despesas sem enfrentar as causas dos problemas.

Responsabilidade fiscal e proteção social precisam caminhar juntas. Cada real consumido por uma iniciativa ineficiente deixa de financiar uma necessidade concreta da população. O Brasil precisa incorporar à gestão pública a obrigação de medir, corrigir, aperfeiçoar e, quando necessário, encerrar programas. Um Estado que gasta muito e gasta mal compromete sua capacidade de proteger justamente quem mais depende dele.

 

Ivandro Oliveira é jornalista

 

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