A vitória de Lula, os números das urnas e o fracasso das pesquisas; confira a análise de Ivandro Oliveira

FOTO: Lula e Flávio BolsonaroCrédito,EPA

A vitória de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial deste domingo (25) deixou números que merecem uma análise mais aprofundada. Entre o primeiro e o segundo turno, Lula conquistou aproximadamente 10,3 milhões de votos adicionais, um crescimento de quase 20%. Flávio, por sua vez, ampliou sua votação em cerca de 3,5 milhões de votos, pouco mais de 6%. A diferença não é pequena e revela que, na reta final da disputa, o presidente conseguiu ampliar seu eleitorado numa proporção muito superior à do adversário.

Mas de onde vieram esses 13,8 milhões de votos adicionais? A explicação passa, principalmente, pela redistribuição dos votos dos candidatos derrotados no primeiro turno. Aproximadamente 9 milhões de votos haviam sido destinados a Renan, Curi, Caiado e Zema. O restante pode ser explicado, em linhas gerais, pela redução das abstenções e dos votos brancos e nulos. Evidentemente, existem nuances nesse movimento, mas um dado chama particularmente a atenção: Lula cresceu mais do que Flávio em todos os estados brasileiros. Um desempenho nacional que ajuda a dimensionar a capacidade de recuperação eleitoral do petista.

O que esses números revelam politicamente? Talvez que o sentimento de mudança, tão presente no primeiro turno, não tenha sido suficiente para convencer a maioria dos brasileiros a entregar o comando do país a um Bolsonaro. Ou que Lula, mesmo enfrentando o desgaste natural de quem acumula décadas de protagonismo político, ainda conserva uma capacidade extraordinária de mobilização. O fato é que, diante de um adversário que parecia reunir as condições para encerrar seu ciclo no poder, Lula conseguiu se reinventar, recuperar terreno e protagonizar uma virada eleitoral de grandes proporções.

Há, entretanto, outro personagem dessa eleição que precisa prestar contas à sociedade: os institutos de pesquisa. Depois de uma sucessão de levantamentos que apontavam um cenário diferente daquele confirmado pelas urnas, é inevitável questionar os métodos, as amostragens e a capacidade dessas empresas de captar movimentos do eleitorado. Pesquisas não são instrumentos de adivinhação, mas também não podem se transformar em retratos sistematicamente distantes da realidade. O tamanho dos erros exige explicações técnicas, transparentes e convincentes, sobretudo de quem reivindica credibilidade para influenciar o debate público.

No fim das contas, a eleição deixa duas constatações. A primeira é que Lula demonstrou uma força eleitoral que muitos, inclusive este que escreve, já não imaginavam possível. A segunda é que as urnas continuam sendo capazes de desmentir certezas construídas ao longo de uma campanha inteira. Sobre as razões mais profundas dessa virada, ainda haverá muito a investigar. Mas confesso que minha maior curiosidade, neste momento, é ouvir o que os institutos de pesquisa têm a dizer. Afinal, depois de tantos prognósticos frustrados, uma explicação é o mínimo que devem aos brasileiros.

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