A urna mudou o jogo; por Ivandro Oliveira

Eleição só termina quando acaba. Mas algumas coisas terminam antes da contagem final. O primeiro turno deixou duas evidências políticas: o lulismo que governou o país nos últimos quatro anos chegou ao limite de sua fórmula e o STF dificilmente atravessará o próximo ciclo político operando sob o mesmo grau de liberdade institucional e sem enfrentar uma cobrança muito maior por freios, limites e controles. Lula ainda pode vencer o segundo turno. Mas, mesmo que vença, terá pela frente um país politicamente diferente daquele que encontrou em 2023.

As entrevistas depois da apuração foram quase uma fotografia do momento. De um lado, Flávio Bolsonaro falando em mudança e no fim de um ciclo. Do outro, Lula prometendo derrotar o bolsonarismo. O petista parece não ter entendido o recado mais importante das urnas: esta eleição não gira apenas em torno de Bolsonaro. Gira em torno de mudança. Lula continua lutando contra o passado enquanto uma parcela expressiva do eleitorado parece discutir o futuro. E talvez esse seja seu maior adversário no segundo turno: não Flávio, não o marketing, não as redes sociais, mas a dificuldade de reconhecer que o Brasil de hoje já não responde aos mesmos comandos políticos de vinte anos atrás.

Enquanto o lulismo procura culpados e aposta novamente em medidas de forte apelo eleitoral, Flávio tenta ocupar justamente o espaço que pode decidir a eleição: o centro. Apresenta-se com um discurso menos estridente que o do pai e busca transformar o sentimento antipetista em algo maior: uma candidatura de mudança. E Brasília, como sempre, fareja rapidamente para onde sopra o vento. Apoios começam a aparecer, setores do Centrão se movimentam e políticos que ontem calculavam cada palavra agora recalculam suas posições. Na política brasileira, convicções costumam caminhar ao lado das pesquisas e, principalmente, das urnas.

O STF também recebeu seu recado. Não porque ministros estivessem na cédula, mas porque a atuação da Corte tornou-se parte central da disputa política brasileira. Uma ala importante do Supremo esteve durante anos no epicentro dos confrontos com o bolsonarismo e, agora, encontrará um Congresso fortalecido à direita e um debate renovado sobre prerrogativas, decisões monocráticas, impeachment de ministros e equilíbrio entre os Poderes. A Corte continuará exercendo suas competências constitucionais, evidentemente. O que parece muito menos sustentável politicamente é imaginar que a relação entre Supremo, Congresso e Executivo permanecerá exatamente como esteve até aqui.

Lula ainda está vivo na disputa. E eleição, vale repetir, só acaba quando termina. Mas seu relógio corre mais depressa. Ele precisa convencer o eleitor de que pode representar o futuro depois de ter passado boa parte da campanha defendendo o legado do passado. Flávio, por sua vez, precisa demonstrar que a palavra “mudança” significa algo além da troca de nomes no Palácio do Planalto. Seja qual for o resultado do segundo turno, porém, uma mensagem já saiu das urnas: Brasília mudou. Quem ainda não percebeu talvez seja justamente quem mais precisava perceber.

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