O jornalista Merval Pereira, de O Globo, fez uma autocrítica durante participação na GloboNews e admitiu que parte da imprensa contribuiu para a criação de um “monstro” ao tolerar e “passar a mão” sobre decisões tomadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo Merval, que preside a Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2019 Moraes teria atropelado ritos, trâmites legais e a própria Constituição em determinadas decisões, sob a justificativa de combater ameaças consideradas graves à democracia.
Na avaliação do jornalista, a imprensa acabou relativizando essas medidas porque entendia que os objetivos justificavam os meios empregados. “E nós da imprensa temos que fazer um mea-culpa. A gente aceitou medidas fora da lei porque achava que os fins justificavam os meios. Esquecemos que as formalidades são fundamentais. A gente realmente errou”, afirmou Merval. A declaração representa uma rara admissão pública, dentro do próprio campo jornalístico, de que a tolerância com determinadas práticas institucionais pode ter contribuído para o fortalecimento de poderes exercidos sem os devidos freios e contrapesos.
O comentário reacende o debate sobre os limites da atuação do Judiciário e sobre o papel da imprensa na fiscalização das instituições. Ao reconhecer que houve complacência diante de decisões que, em sua avaliação atual, extrapolaram os limites legais, Merval Pereira coloca em discussão uma questão central: na defesa da democracia, princípios, regras e garantias constitucionais podem ser relativizados em nome de um suposto bem maior? Para o jornalista, a resposta parece estar no próprio mea-culpa: “os fins” não podem justificar “os meios” quando as formalidades e a Constituição são justamente os instrumentos que impedem que qualquer autoridade se torne maior do que a lei.




