O Brasil entrou numa grave crise institucional — e tudo indica que ela ainda pode piorar. Nas aparências, o novo capítulo surgiu com o conteúdo dos celulares de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso sob suspeita de comandar uma organização criminosa. O material revelado levanta questionamentos extremamente graves sobre as relações do banqueiro com autoridades do mais alto escalão da República, entre elas o ministro Alexandre de Moraes, um dos homens mais poderosos do Supremo Tribunal Federal. A suspeita de que um ministro da Suprema Corte possa ter atuado de forma tão próxima aos interesses de um empresário acusado de fraudes já seria, por si só, devastadora.
A situação se tornou ainda mais intragável pela reação das próprias instituições. O STF não demonstrou, até agora, a disposição que a gravidade do caso exigiria, enquanto a Procuradoria-Geral da República questionou a atuação do ministro André Mendonça que resultou na coleta dos dados que alimentaram as suspeitas. Agora, a eventual abertura de investigação sobre Moraes poderá ser decidida pelo próprio plenário do Supremo. É um daqueles casos em que a Corte parece não ter boas opções: se nada fizer, aprofundará a percepção de corporativismo; se investigar, reconhecerá que existem elementos graves o suficiente para colocar um de seus integrantes sob escrutínio.
Mas a crise é maior do que Moraes, Toffoli ou o Banco Master. O que está em jogo é a percepção de uma perigosa proximidade entre grandes interesses econômicos, poder político e instituições que deveriam funcionar com absoluta independência. Quando decisões e relações entre integrantes dos Poderes passam a ser vistas pela sociedade como parte de acordos de conveniência, a confiança pública começa a ruir. E sem confiança, nenhuma democracia funciona plenamente.
O mais preocupante é que esse ambiente alimenta a sensação de que existem cidadãos e grupos que estão acima das regras aplicadas ao restante da sociedade. Pouco importa, nesse momento, quem será absolvido ou responsabilizado ao final das investigações. O estrago institucional já está feito quando milhões de brasileiros passam a acreditar que o sistema protege os poderosos e funciona de maneira diferente conforme o nome envolvido.
É assim que uma crise política se transforma em uma crise de legitimidade. O sentimento de indignação cresce, a descrença se espalha e surge algo ainda mais perigoso: o nojo diante das instituições e daqueles que deveriam representá-las. Quando a sociedade deixa de acreditar que Justiça, Congresso e Executivo são capazes de impor limites a seus próprios integrantes, abre-se espaço para o descrédito, para o radicalismo e até para a desobediência às próprias regras democráticas.
Por isso, o Brasil precisa de respostas — não de silêncio, corporativismo ou acordos de bastidores. Se existem indícios, que sejam investigados; se não existem crimes, que isso seja demonstrado com transparência. O que não pode acontecer é a República assistir passivamente à destruição de sua própria credibilidade. Porque governos passam, ministros passam, empresários passam. Mas quando uma sociedade perde a confiança nas instituições, reconstruí-la pode levar uma geração inteira.
Ivandro Oliveira é jornalista




