A vice ideal não é apenas um nome, é uma mensagem; por Ivandro Oliveira

Na política, a escolha do candidato a vice raramente se resume ao currículo. Em disputas majoritárias, a composição da chapa costuma refletir aquilo que o candidato ao governo deseja comunicar ao eleitor. Mais do que preencher um espaço, o vice ajuda a contar uma história.

Tudo indica que, por questão de conjuntura, a chapa liderada pelo governador Lucas Ribeiro (PP) tende a investir menos em compensações estritamente partidárias e mais em atributos de natureza conceitual. A definição da vice — caso a opção seja por uma mulher — poderá ser orientada pela construção de uma narrativa que dialogue com os desafios do momento e amplie a capacidade de comunicação da campanha.

Nesse contexto, ganha força a ideia de um perfil feminino com inserção em João Pessoa, maior colégio eleitoral da Paraíba e principal reduto político do prefeito Cícero Lucena, apontado como um dos potenciais adversários da disputa estadual. Mais do que representar um partido, a escolhida precisará agregar simbolismo, complementar a mensagem da chapa e estabelecer uma conexão com um eleitorado decisivo.

Quatro mulheres aparecem, hoje, no radar das articulações: Rafaela Camaraense (PDT), tenente-coronel Viviane Vieira (PSB), Lígia Feliciano (União Brasil) e Maísa Cartaxo (Republicanos). Todas têm perfis distintos e, por consequência, contam histórias diferentes.

Rafaela Camaraense reúne atributos de confiança política. Ex-secretária de Estado, suplente de deputada federal e nome defendido pelo PDT para a composição da chapa, mantém relação de proximidade com Lucas Ribeiro e é vista como alguém capaz de facilitar a condução do projeto político de continuidade do governo. Seu desafio, entretanto, está na identificação mais consistente com João Pessoa, fator que pode pesar em uma eleição onde a capital tende a exercer papel estratégico.

Lígia Feliciano, por sua vez, oferece experiência institucional. Foi vice-governadora por dois mandatos e construiu uma trajetória marcada pela discrição e pela estabilidade nas funções que exerceu. Sua presença transmitiria previsibilidade administrativa e diálogo político. Em contrapartida, sua imagem permanece mais associada a Campina Grande do que à Grande João Pessoa, justamente onde a chapa governista poderá buscar ampliar sua competitividade.

É nesse cenário que o nome da tenente-coronel Viviane Vieira passa a chamar atenção. Indicada oficialmente pelo PSB como uma das opções para a vice, ela representa uma narrativa bastante específica. Mulher, oficial da Polícia Militar, comandante em Cabedelo e reconhecida por sua atuação no enfrentamento às organizações criminosas na Região Metropolitana, chega ao debate carregando um discurso diretamente conectado ao tema que figura entre as maiores preocupações dos brasileiros: a segurança pública.

Sua história ainda dialoga com outro segmento importante do eleitorado. Mãe de uma criança atípica, Viviane aproxima a chapa de uma pauta que mobiliza milhares de famílias e mulheres paraibanas em torno da inclusão, do acolhimento e das políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência. O resultado é um perfil que combina firmeza institucional com sensibilidade social, permitindo que a campanha transite entre dois temas de forte apelo eleitoral.

Já Maísa Cartaxo aparece como um nome cuja principal força está na identidade com João Pessoa. Embora seu projeto político atual esteja voltado para uma candidatura à Câmara Federal, seu nome continua sendo citado nos bastidores para a composição majoritária. Ex-primeira-dama da capital, professora universitária e figura pública de atuação discreta, transmite serenidade, maturidade e familiaridade com a liturgia dos cargos públicos. Além disso, sua eventual indicação contemplaria o Republicanos, um dos principais aliados da base governista.

No fim das contas, a decisão sobre a vice dificilmente será tomada apenas com base na biografia individual de cada nome. O cálculo envolve equilíbrio partidário, alianças, estratégia regional e potencial eleitoral. Mas, se a conjuntura realmente apontar para uma escolha baseada em conceitos e mensagens, talvez a pergunta mais importante deixe de ser “quem é a vice?” para se tornar “qual história essa vice ajudará a contar?”.

Em uma eleição cada vez mais orientada por símbolos, percepção e identificação com o eleitor, essa narrativa pode ser tão importante quanto o peso político do partido que ocupará a segunda posição na chapa.

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