O silêncio também mata; por Ivandro Oliveira

FOTO: REPRODUÇÃO TV CABO BRANCO

Há tragédias que não podem ser tratadas como estatística, acidente doméstico ou mera fatalidade. O caso do elevador que despencou em um condomínio de alto padrão no bairro do Altiplano, em João Pessoa, deixando duas crianças feridas e uma mulher de apenas 36 anos paraplégica, precisa ser encarado pelo que aparentemente é: um retrato cruel da negligência, da morosidade institucional e do peso desigual que o poder econômico ainda exerce sobre as estruturas deste país.

Não se trata apenas de um elevador que caiu. Trata-se de um sistema inteiro que falhou antes mesmo do equipamento despencar.

As informações já conhecidas tornam o episódio ainda mais grave. O condomínio havia acionado judicialmente a construtora GGP denunciando vícios estruturais, falhas recorrentes e riscos concretos envolvendo os elevadores do empreendimento. Não eram reclamações superficiais. Falava-se em incêndio no fosso de elevador, travamentos constantes, queda abrupta anterior, falhas em sistemas de segurança, interfone de emergência inoperante e ausência de solução definitiva mesmo após inúmeras reclamações administrativas.

A Justiça de primeira instância reconheceu a gravidade do caso. Determinou a substituição integral dos elevadores e impôs multa diária para obrigar o cumprimento da decisão. O magistrado destacou, inclusive, o potencial risco de acidentes graves ou fatais.

Mas então entrou em cena aquilo que o brasileiro conhece bem: o peso do poder econômico.

A construtora recorreu. Conseguiu reverter a decisão no Tribunal de Justiça da Paraíba. E o processo, ao que tudo indica, repousa lentamente em alguma gaveta refrigerada do Palácio da Justiça, enquanto uma mãe jovem agora encara uma condenação física permanente.

É impossível não fazer perguntas incômodas.

Se já havia decisão judicial reconhecendo risco grave, por que o caso não recebeu prioridade absoluta?

Se existiam laudos técnicos apontando falhas de alta periculosidade, por que o processo não teve tramitação urgente?

Se o próprio condomínio denunciava risco iminente, por que ninguém agiu a tempo de evitar uma tragédia anunciada?

O laudo técnico é devastador. Fala em ausência de sinalização de segurança, falhas no aterramento elétrico, inexistência de iluminação de emergência, problemas na ventilação, deficiência nos dispositivos de resgate e, talvez o mais alarmante: uma máquina de tração incompatível com a capacidade estrutural do elevador e fora das normas de segurança.

Mais grave ainda: o documento recomendava substituição completa do equipamento.

Agora, depois da tragédia consumada, surgem as notas frias, juridicamente calculadas, tentando delimitar responsabilidades. A construtora afirma que a manutenção dos equipamentos era responsabilidade do condomínio após a entrega do empreendimento. É uma tese previsível no campo jurídico. Mas ela não apaga o histórico documental já existente nem elimina as denúncias anteriores de vícios estruturais persistentes.

E aqui reside o ponto central: o que houve no Altiplano não pode ser reduzido a uma disputa burocrática entre condomínio e construtora. Existe uma vítima humana no centro dessa história. Uma mulher que saiu de casa para viver sua rotina e teve a vida devastada. Duas crianças marcadas por um episódio traumático. Famílias destruídas emocionalmente.

Há momentos em que o jornalismo precisa ultrapassar a simples narrativa factual e exercer sua função pública. Aprendi, ainda na universidade, com mestres como Luiz Custódio e Wellington Pereira, que o jornalismo não serve para bajular poderosos nem para anestesiar consciências. Serve para iluminar zonas escuras, cobrar respostas e impedir que a verdade seja soterrada pela influência política, econômica ou institucional.

E este caso cheira mal.

Cheira à negligência ignorada.

Cheira à lentidão seletiva.

Cheira ao velho Brasil onde processos envolvendo gente poderosa parecem caminhar em velocidade diferente.

O Poder Judiciário da Paraíba também precisa explicações públicas à sociedade. Não basta o silêncio protocolar dos autos. Não basta dizer que “o processo segue tramitando”. Uma tragédia dessa dimensão exige transparência. Exige prestação de contas. Exige esclarecer por que uma decisão que reconhecia riscos graves foi revertida e por que medidas efetivas aparentemente não impediram que o pior acontecesse.

A sociedade paraibana não pode aceitar que o caso desapareça do debate público após alguns dias de indignação nas redes sociais. Porque quando tragédias anunciadas deixam de gerar consequências concretas, cria-se uma autorização silenciosa para que novas ocorram.

Não houve fatalidade.

Fatalidade é um raio.

Fatalidade é um terremoto.

Quando existem alertas, denúncias, laudos, decisões judiciais e riscos previamente conhecidos, o nome disso é outra coisa.

E os responsáveis — sejam empresários, técnicos, administradores ou agentes públicos — precisam ser identificados e responsabilizados, independentemente do tamanho de sua influência ou patrimônio.

Porque nenhuma estrutura de concreto vale mais que uma vida humana.

E porque o silêncio institucional, diante de casos assim, também desaba.

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