CRÔNICA DA SEMANA: Legado de uma mãe; por Ivandro Oliveira

Minha mãe partiu em 2019. Dois anos depois, meu pai também se foi. E desde então aprendi que a saudade não desaparece. Ela apenas muda de lugar dentro da gente. Há dias em que ela aperta mais forte, principalmente quando a memória resolve abrir gavetas antigas da vida.

E quando isso acontece, eu volto à infância.

Volto ao tempo dos primeiros ensinamentos, das palavras firmes e cheias de amor, do cuidado silencioso que só uma mãe sabe ter. Minha mãe, professora por vocação e missão, me ensinou muito antes da escola me ensinar. Foi ela quem me apresentou o valor da leitura, da educação e do conhecimento como ferramentas capazes de transformar destinos.

Lembro do primeiro gibi, dos primeiros livros, das enciclopédias que pareciam abrir janelas para o mundo dentro de casa. Lembro do brilho nos olhos dela ao perceber meu interesse pelas palavras, pelas histórias, pela comunicação. E jamais esquecerei a emoção do primeiro computador que ganhei quando entrei na Universidade Federal da Paraíba para cursar Jornalismo. Mais do que um presente, era um gesto de confiança. Ela acreditava nos meus sonhos antes mesmo de eu ter coragem de acreditar.

O amor que tenho pela minha mãe continua intacto. E cresce quando percebo o tamanho do legado que ela e meu pai deixaram em mim. Não herdei riquezas materiais. Herdei valores. Herdei caráter, fé, dignidade, respeito pelas pessoas, amor pelo estudo e a certeza de que o conhecimento é uma das maiores heranças que alguém pode receber. É essa herança que quero e vou deixar para Matheus, Maria Helena e Maria Heloísa, meus filhos. 

Talvez por isso exista algo tão especial no fato de eu ter nascido no mesmo mês que ela e fazer aniversário apenas quatro dias depois. Como se Deus tivesse desenhado, no calendário da vida, uma forma bonita de eternamente nos manter próximos.

Hoje entendo que algumas pessoas não vão embora por completo. Permanecem nos gestos que aprendemos com elas, nas escolhas que fazemos e na maneira como seguimos vivendo.

Minha mãe segue viva em mim. Nas palavras que escrevo, na fé que carrego, no homem que me tornei e na gratidão que sinto por ter sido filho dela.

Ivandro Oliveira é jornalista e sócio-proprietário do Tá na Área

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