O que se viu nos bastidores — e no desfecho — da sabatina de Jorge Messias no Senado não foi um acidente político. Foi roteiro. E com protagonista definido desde o primeiro ato: Davi Alcolumbre.
A rejeição do nome indicado por Luiz Inácio Lula da Silva para o Supremo Tribunal Federal rompe uma tradição centenária e expõe, sem rodeios, a fragilidade da articulação política do governo. Mais do que isso: escancara quem, de fato, dita o ritmo no Congresso Nacional.
Desde o início, o clima em torno da sabatina já deixava claro que não se tratava de uma disputa técnica ou jurídica. Era política em estado bruto. Alcolumbre nunca escondeu — nem em público, nem nas conversas reservadas — sua convicção de que nada passa pelo Senado sem sua chancela. E, desta vez, fez questão de provar.
A derrota de Messias não é apenas a rejeição de um nome. É uma demonstração de força cuidadosamente construída. Um aviso em alto e bom som: não há espaço para articulação paralela, acordos fora do radar ou tentativas de contornar o comando da Casa. Quem quiser aprovar algo relevante, precisa passar pelo presidente do Senado — e jogar conforme suas regras.
O episódio ganha contornos ainda mais evidentes quando se observa o contraste. Alcolumbre tem atuado decisivamente para ‘blindar’ nomes como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli no rumoroso caso Master. Aliás, é importante salientar que o nome que circulava com força para a vaga era o de Rodrigo Pacheco — alinhado ao próprio Alcolumbre. Messias, nesse cenário, tornou-se peça descartável em um tabuleiro onde o governo claramente perdeu a mão.
O simbolismo do episódio é incontornável. Lula se torna o primeiro presidente desde Floriano Peixoto, no século XIX, a ter uma indicação ao STF rejeitada pelo Senado. Um marco que fala menos sobre o indicado e mais sobre o isolamento político do Planalto.
E há uma ironia inevitável: ao longo da história recente, o Senado aprovou nomes cercados de críticas e questionamentos — alguns com credenciais jurídicas frágeis, a exemplo do próprio Toffoli. Ainda assim, passaram. Não por mérito incontestável, mas por alinhamento político. Desta vez, faltou exatamente isso.
No fim, a conta não fecha apenas para Jorge Messias. Ela recai sobre um governo que, cada vez mais, demonstra dificuldade em construir maioria, sustentar alianças e compreender a dinâmica real do poder em Brasília.
Na selva como na política, hiena não ataca leão a não ser que ache que o bicho esteja ferido ou fraco. Se Alcolumbre feriu Lula com essa humilhação histórica, é porque não acredita num eventual segundo mandato do petista ou que não teria força suficiente para um retaliação nos próximos anos.
O fato é que a rejeição de Messias não foi um tropeço. Foi um recado — e dos mais duros a Lula.




