Cabedelo parece, mais uma vez, aprisionada em um roteiro que insiste em se repetir: crises políticas, intervenções judiciais e uma permanente sensação de instabilidade institucional. No meio desse cenário, surge agora um novo capítulo que, longe de trazer respostas, amplia dúvidas — e, pior, flerta com a possibilidade de uma injustiça.
Edvaldo Neto não chegou ao comando do município por acaso. Na condição de presidente da Câmara, assumiu a prefeitura em um momento de ruptura, após a cassação do prefeito e do vice pela Justiça Eleitoral. Era uma conjuntura adversa, de terra arrasada administrativa e descrédito político. Ainda assim, conseguiu manter o funcionamento básico da máquina pública, garantindo a continuidade de serviços essenciais que já não eram exemplares, mas que tampouco podiam parar.
Cumpriu seu papel em um mandato tampão e, submetido ao crivo popular na eleição suplementar, venceu. Não por imposição, não por acaso — mas pelo voto. E voto, em democracia, é mais do que um resultado formal: é expressão legítima da vontade coletiva.
É justamente essa legitimidade que agora parece colocada sob suspeita por uma investigação que, embora necessária em sua essência, levanta preocupações na forma como vem sendo conduzida e, sobretudo, apresentada à opinião pública.
É preciso deixar claro: o combate ao crime organizado, especialmente quando há indícios de infiltração nos espaços de poder, é indispensável. O trabalho dos órgãos de controle, como o Gaeco, tem histórico relevante e merece reconhecimento. A sociedade precisa dessas instituições vigilantes.
Mas investigar não é condenar.
Quando versões ganham contornos de sentença antes mesmo da conclusão dos processos, o que se fragiliza não é apenas a reputação de um indivíduo — é o próprio princípio da presunção de inocência. E esse não é um detalhe técnico: é um pilar do Estado de Direito.
A narrativa de que Edvaldo Neto teria vencido a eleição sob influência direta do crime organizado soa, para muitos que conhecem de perto a realidade de Cabedelo, como desproporcional às evidências conhecidas até agora. Não se trata de blindar ninguém de apuração, mas de exigir que acusações dessa gravidade sejam sustentadas com rigor, equilíbrio e responsabilidade.
Edvaldo Neto é uma figura conhecida na cidade. Sua trajetória não nasceu na política recente nem se construiu de forma repentina. Em municípios como Cabedelo, onde as relações são próximas e as histórias são públicas, reputações não se fabricam da noite para o dia — e tampouco deveriam ser desfeitas com base em narrativas ainda inconclusas.
Há, portanto, um risco real de que se esteja diante de mais um episódio em que o espetáculo se antecipa à prova. E a história recente mostra que investigações que começam com grande impacto midiático nem sempre terminam com a mesma solidez de evidências que as justificaram.
Se isso se confirmar, o dano será duplo.
De um lado, à imagem de um agente político que, até prova em contrário, foi legitimamente eleito. De outro — e talvez mais grave —, à própria confiança da população nas instituições responsáveis por garantir justiça e transparência.
Cabedelo não precisa de mais um capítulo marcado por frustração e descrédito. Precisa de clareza. Precisa de verdade.
Que a Justiça cumpra seu papel com serenidade, aprofundando a investigação, confrontando versões e produzindo conclusões consistentes. Se houver irregularidades, que sejam demonstradas de forma inequívoca. Se não houver, que isso seja afirmado com a mesma contundência com que as suspeitas foram divulgadas.
O que não se pode admitir é que a vontade expressa nas urnas seja relativizada por julgamentos antecipados ou por narrativas que ainda carecem de comprovação.
Porque, no fim, a maior injustiça não será apenas contra um nome — mas contra uma cidade inteira que já sofreu demais com a instabilidade e que merece, acima de tudo, respeito à sua escolha democrática.




