Suprema berlinda; por Ivandro Oliveira

Sérgio Lima /Poder360

O Supremo Tribunal Federal deixou de ser apenas guardião da Constituição para se tornar, também, protagonista permanente do debate político nacional. Essa mudança de papel — em parte imposta pelas circunstâncias, em parte assumida voluntariamente — cobra agora um preço alto: o desgaste acelerado de sua imagem perante parcelas crescentes da sociedade.

O episódio mais recente envolvendo o ministro Gilmar Mendes, em declarações dirigidas ao ex-governador Romeu Zema, é sintomático desse processo. Não se trata apenas de discordância política ou de um embate retórico mais áspero. O que está em jogo é o padrão de comportamento esperado de um integrante da mais alta Corte do país. Quando a linguagem resvala para o deboche ou para ataques pessoais, o prejuízo não é individual — é institucional.

A recorrência desse tipo de episódio sugere algo mais profundo do que deslizes pontuais. Indica uma cultura interna em que a exposição pública, o confronto e a retórica contundente passaram a fazer parte do repertório cotidiano. O problema é que tribunais constitucionais não podem operar sob a lógica do palanque. Sua força reside na sobriedade, na previsibilidade e na autoridade técnica — ativos que se corroem quando substituídos por protagonismo e ruído.

Esse desgaste se intensifica diante de temas sensíveis, como a condução de investigações no âmbito do próprio Supremo, a exemplo do inquérito das fake news. É inegável que o modelo adotado levanta questionamentos legítimos sobre limites institucionais. Ignorar essas críticas ou tratá-las como meramente políticas não resolve o problema — apenas o aprofunda.

Há também um componente de comunicação que agrava a crise. Em momentos de tensão entre Poderes, o silêncio ou a falta de esclarecimentos claros abre espaço para narrativas concorrentes, muitas vezes desfavoráveis à própria instituição. Em um ambiente já polarizado, a ausência de transparência funciona como combustível para a desconfiança.

Nada disso significa negar a importância do STF ou minimizar seu papel na contenção de abusos e na defesa da ordem constitucional. Pelo contrário: é justamente por sua centralidade que o tribunal precisa ser mais rigoroso consigo mesmo. Quanto maior o poder, maior a exigência de autocontenção.

O ponto central é simples, embora desconfortável: críticas ao Supremo não são, por si só, ameaças à democracia. Em muitos casos, são sintomas de uma relação que precisa ser recalibrada. Reagir a esse cenário com mais fechamento, mais confronto ou mais excepcionalidade pode produzir o efeito inverso ao desejado.

A discussão sobre reformas no Judiciário, nesse contexto, deixa de ser tabu e passa a ser inevitável. Seja na forma de maior clareza de competências, seja em mecanismos de accountability ou na própria dinâmica de atuação da Corte, o debate precisa acontecer com seriedade — e sem paixões momentâneas.

O STF não está diante de uma crise trivial ou passageira. Está diante de um teste de maturidade institucional. A forma como seus ministros se comportam — dentro e fora dos autos — será determinante para definir se a Corte sairá desse período ainda mais distante da sociedade que deveria servir ou totalmente destruído pelos seus próprios erros.

Ivandro Oliveira é jornalista 

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