Inauguração do atraso; por Ivandro Oliveira

Há obras públicas que nascem para resolver problemas — e há aquelas que parecem existir apenas para ilustrar o problema em si. A recente inauguração de um arremedo de elevado na BR-230 encaixa-se com precisão cirúrgica na segunda categoria. Não é apenas concreto: é metáfora. Uma metáfora erguida lentamente, ao longo de quase uma década, sobre os escombros da eficiência administrativa.

A tal triplicação da rodovia atravessou três governos — Michel Temer, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva — e, como um bastão mal passado numa corrida de revezamento burocrática, conseguiu a proeza de não ser plenamente assumida por nenhum deles. Cada gestão contribuiu com seu quinhão de promessas, revisões, paralisações e, claro, justificativas. O resultado final é uma obra que chega não como solução, mas como lembrete incômodo do tempo perdido.

E aqui reside o detalhe mais eloquente — e talvez mais constrangedor: depois de quase dez anos, a obra não está nem perto da metade. O que se inaugurou, portanto, não é um marco de conclusão, nem sequer de avanço consistente, mas um fragmento. Um recorte conveniente de um projeto inacabado, apresentado como conquista quando, na prática, escancara o ritmo claudicante da execução. É como cortar a fita de chegada no meio da corrida e esperar aplausos pela ousadia.

E então entra em cena o senador Veneziano Vital do Rego, aparentemente decidido a colher dividendos políticos de um empreendimento que mais testa a paciência do cidadão do que resolve seu cotidiano. Se a intenção era capitalizar, o efeito foi inverso: expôs-se ao desgaste. Porque há algo de profundamente desconectado — para dizer o mínimo — em celebrar com entusiasmo uma fração de obra, enquanto o todo permanece distante, quase miragem.

Como se não bastasse, o evento de inauguração flertou com o surrealismo. A presença do ministro dos Transportes, em clima de comício improvisado, sendo aplaudido por uma plateia que caberia confortavelmente em uma mesa de bar, compôs um espetáculo que beirou o constrangimento. Não faltou entusiasmo — faltou público. E sobrou encenação.

A cena evocou inevitavelmente Odorico Paraguaçu, o icônico prefeito de Sucupira, mestre na arte de transformar banalidades em eventos épicos e inaugurações em atos teatrais. A diferença é que, na ficção, o exagero é proposital e satírico. Aqui, a realidade parece ter adotado o mesmo roteiro sem perceber que virou caricatura.

No fim das contas, o elevado recém-inaugurado não eleva apenas o tráfego — ele eleva o nível de frustração de quem acompanha essa novela há anos. E talvez esse seja o ponto mais simbólico: depois de tanto tempo, tanto discurso e tanta expectativa, o que se entrega não é uma obra à altura da espera, mas um monumento à mediocridade administrativa — ainda incompleto, ainda distante, ainda devendo.

Se havia intenção de celebrar progresso, o efeito foi o oposto. A cerimônia não marcou uma conquista — escancarou uma falha. E, ironicamente, fez isso com direito a aplausos.

 

 

Ivandro Oliveira é jornalista 

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