CRÔNICA DA SEMANA: País das conveniências; por Ivandro Oliveira

Alexandre de Moraes e esposa. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Sabe quando a realidade resolve brincar de ironia… e a gente fica sem saber se ri ou se se preocupa?

Pois é. O Brasil tem esse talento peculiar de transformar o improvável em rotina.

De um lado, temos o ministro Alexandre de Moraes abrindo caminho para julgar uma ação apresentada pelo Partido dos Trabalhadores. No centro da discussão, um velho conhecido do noticiário: as delações premiadas.

Aquelas mesmas.

As que já foram exaltadas como instrumentos quase sagrados de combate à corrupção. As que ajudaram a construir narrativas, derrubar reputações, condenar figuras de peso — incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Até aí, nada de novo sob o sol tropical.

Mas o Brasil não seria o Brasil sem um enredo caprichado.

O curioso — para usar uma palavra gentil — é o momento. Justamente agora, quando surgem rumores de uma possível delação que poderia respingar… em quem decide.

E aí a realidade dá aquela piscadinha irônica.

Porque, veja bem: quando a ferramenta serve, ela é símbolo de justiça. Quando ameaça inverter o jogo, vira problema jurídico. Quando atinge o outro, é avanço institucional. Quando pode alcançar o próprio quintal… talvez seja hora de “reavaliar”.

Não é que a lei mude. É a conveniência que parece ganhar nova interpretação.

E assim seguimos, nesse país onde o roteiro não precisa de ficção científica. Aqui, o absurdo vem com carimbo oficial e linguagem técnica — o que só torna tudo mais sofisticadamente estranho.

No fim, fica a sensação de que a justiça brasileira, às vezes, não é cega.

Ela só escolhe muito bem onde quer olhar.

E, claro, tudo isso — sempre — em nome da democracia.

Uma democracia que, de tão elástica, já não se sabe mais se é princípio… ou instrumento.

Ivandro Oliveira é jornalista

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