O cenário político-eleitoral brasileiro volta a desenhar, com antecedência, o mesmo traço central que marcou a disputa de 2022: a polarização como ponto de partida — e o centro como ponto de chegada obrigatório.
Se a atual clivagem entre lulopetistas e bolsonaristas permanecer como eixo estruturante da disputa de 2026, quem assumir a Presidência da República em 2027 dificilmente o fará apenas mobilizando sua base ideológica. Assim como ocorreu na última eleição, será necessário dialogar com o eleitorado de centro, especialmente a classe média urbana, cada vez mais pragmática, sensível à economia doméstica e menos tolerante a radicalismos retóricos.
O precedente de 2022
Em 2022, na disputa contra Jair Bolsonaro, foi Luiz Inácio Lula da Silva quem conseguiu executar com mais eficácia esse movimento estratégico. Lula moderou o discurso, construiu pontes com setores do empresariado, escolheu um vice identificado com o centro e buscou transmitir previsibilidade institucional. O gesto foi decisivo para reduzir resistências fora do eleitorado tradicional da esquerda e consolidar maioria no segundo turno.
A lógica foi clara: na polarização, vence quem amplia — não quem apenas reafirma a própria bolha.
O movimento antecipado de 2026
A pouco mais de um ano do início formal da corrida eleitoral, sinais semelhantes começam a emergir no campo da direita. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem adotado um tom mais moderado e institucional, distanciando-se do estilo mais confrontacional do pai. A estratégia parece mirar exatamente o eleitorado que decidiu 2022: a classe média que oscila entre o cansaço da instabilidade política e a frustração econômica.
Os números mais recentes indicam que esse reposicionamento pode estar produzindo efeitos. Pesquisa AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, divulgada nesta quarta-feira, aponta empate técnico entre Flávio Bolsonaro e Lula em um eventual segundo turno. O senador aparece com 46,3% das intenções de voto, ante 46,2% do presidente. Em janeiro, o mesmo levantamento mostrava Lula à frente (49,2% contra 44,9%).
No cenário alternativo testado pelo instituto, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também surge competitivo, com 47,1% contra 45,9% de Lula.
A pesquisa ouviu 4.986 eleitores entre 19 e 24 de fevereiro, com margem de erro de um ponto percentual e nível de confiança de 95%.
O centro como território decisivo
Mais do que números pontuais, o levantamento revela uma tendência: o eleitorado está menos cristalizado do que parece. A vantagem já não é automática para quem lidera no campo ideológico. O centro volta a ser o fiel da balança.
A classe média — pressionada por inflação, crédito caro, insegurança e incertezas fiscais — tende a premiar quem oferecer estabilidade com racionalidade econômica, e não apenas identidade ideológica. É um eleitor menos militante e mais avaliativo.
Se Lula, em 2022, compreendeu essa dinâmica e ajustou o discurso para além da esquerda tradicional, a movimentação atual de Flávio Bolsonaro sugere aprendizado semelhante no campo conservador. A diferença está no desafio: enquanto Lula buscava reduzir rejeição, a direita agora precisa ampliar confiança institucional.
Polarização com pragmatismo
A eleição de 2026, ao que tudo indica, não será uma ruptura da polarização — mas sua maturação. A disputa continuará entre polos bem definidos, porém o discurso vencedor será aquele capaz de transmitir moderação, previsibilidade e capacidade de diálogo.
O Brasil que decide eleições não é apenas o das redes sociais ou dos extremos ideológicos. É o Brasil da renda apertada, do pequeno empreendedor, do servidor público, do profissional liberal — a classe média que, silenciosamente, define o segundo turno.
E, mais uma vez, quem quiser governar a partir de 2027 terá que atravessar o centro para chegar ao Planalto.




