Há momentos em que a realidade institucional brasileira ultrapassa qualquer limite do aceitável — e, ainda assim, insiste em se apresentar como normal. A revelação feita pelo Estadão de que Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e personagem central nas investigações envolvendo o escândalo bilionário do Banco Master, é dono do fundo de investimento que comprou uma participação de R$ 6,6 milhões em um resort pertencente aos irmãos do ministro Dias Toffoli, atual relator do caso no Supremo Tribunal Federal, é mais um desses episódios estarrecedores.
A coincidência, por si só, já seria suficiente para acender todos os alertas. Mas o quadro se torna ainda mais perturbador quando se observa que o mesmo ministro vem protagonizando decisões consideradas, no mínimo, anômalas no curso do processo. Toffoli não apenas tem se mostrado excessivamente intervencionista, como chegou ao ponto de repreender a Polícia Federal e interferir diretamente no andamento das investigações que atingem o próprio Fabiano Zettel — o investidor milionário nos negócios de sua família.
O ápice dessa interferência institucional ocorreu quando o ministro impediu que peritos criminais federais tivessem acesso imediato às provas apreendidas na operação, incluindo o celular de Zettel. Em vez disso, determinou que todo o material fosse encaminhado previamente ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, alçado à condição de uma espécie de “supervisor de perícia”. Gonet, vale lembrar, foi sócio de Gilmar Mendes, colega de Toffoli na Suprema Corte — um detalhe que só reforça a sensação de promiscuidade entre interesses pessoais, políticos e institucionais.
O que está em jogo aqui não é apenas a aparência de conflito de interesses, mas a corrosão deliberada dos pilares da Justiça. Quando familiares de investigados fazem negócios milionários com familiares do juiz do caso, e quando esse juiz atua de forma a restringir o trabalho da polícia e blindar provas sensíveis, a confiança no sistema entra em colapso. Não se trata mais de um debate jurídico sofisticado; trata-se de ética elementar e de decoro institucional.
O mais grave é que nada disso parece causar constrangimento. Não há gestos de recuo, pedidos de suspeição ou qualquer sinal de autocrítica. Ao contrário: o sistema se fecha em torno de si mesmo, reage com arrogância e age como se a sociedade fosse incapaz de perceber o que está diante de seus olhos. O recado é claro — e devastador: no topo da pirâmide, as regras são outras.
Diante de tudo isso, resta uma constatação amarga, mas inevitável: o sistema não apenas falhou. Ele perdeu a vergonha.
Ivandro Oliveira é jornalista




