Um presidente acuado e cada vez mais isolado; por Ivandro Oliveira

Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Há quem diga que Brasília costuma engolir os seus próprios líderes. Mas, no caso de Hugo Motta (Republicanos), o paraibano que chegou à presidência da Câmara cheio de expectativa e servido da musculatura política do seu padrinho, o deputado federal alagoano, Arthur Lira (PP) parece que o processo foi mais rápido do que o normal — quase um recorde olímpico da crise.

Motta começou o mandato cercado por partidos da base, cortejado pelo Centrão e observado com cautela pela oposição. Hoje, encontra-se num lugar raro: conseguiu desagradar a todos ao mesmo tempo. Uma proeza, se considerarmos o ecossistema político onde sempre há alguém disposto a oferecer um copo d’água — ainda que envenenado.

As turbulências internas já eram conhecidas, mas o sinal de alerta virou sirene quando até Arthur Lira, seu padrinho político e antecessor direto, decidiu apertar o botão vermelho. A aliados, Lira foi curto e grosso: disse que Motta “está perdido”, que foi “humilhado por Glauber” e que não recebeu sequer a tradicional — e muitas vezes falsa — solidariedade parlamentar.

A cena foi digna de roteiro: Glauber Braga (Psol), acusado de agredir um militante do MBL dentro do Plenário, resolve ocupar a cadeira do próprio presidente da Casa para obstruir a sessão que votaria sua cassação. Foi retirado à força pela Polícia Legislativa, mas saiu, no fim, com apenas uma suspensão de seis meses. Motta, esse, saiu com mais um arranhão na autoridade já esgarçada.

Segundo interlocutores, Lira ficou especialmente irritado com o fato de Motta ter pautado, sem combinar com ninguém, as representações contra Glauber e Carla Zambelli (PL). Em Brasília, errar é permitido. Errar sem avisar, jamais.

Agora, depois de um ano marcado por crises consecutivas, polêmicas desnecessárias e uma incapacidade quase didática de controlar o próprio plenário, o presidente da Câmara tenta, como pode, escapar dos holofotes — ironia para quem sempre sonhou com o protagonismo.

A aliados, confessou estar “cansado de ser refém das polêmicas” que vêm tanto da esquerda quanto da direita. Prometeu “zerar a pauta” de temas ruidosos, como quem tenta reiniciar um computador travado.

Resta saber se esse reinício vai funcionar ou se teremos apenas mais uma tela azul no já tumultuado sistema político brasileiro. Porque, no momento, Hugo Motta parece mais um operador acuado do que um presidente da Câmara. E Brasília, como se sabe, não costuma ter paciência com quem demonstra fraqueza.

Ivandro Oliveira é jornalista

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